Objetivos do capítulo
Ao final deste capítulo, espera-se que o estudante seja capaz de:
- reconhecer a estrutura geral de um modelo de Programação Linear;
- identificar as premissas que sustentam a representação linear;
- relacionar região viável, pontos extremos e soluções básicas viáveis;
- transformar restrições do tipo \(\le\) em igualdades por meio de variáveis de folga;
- organizar o quadro do método Simplex e interpretar uma troca de base;
- executar o teste de otimalidade e o teste da razão mínima;
- reconhecer por que algumas restrições não fornecem diretamente uma base inicial viável.
1. Da situação real ao modelo de Programação Linear
A Pesquisa Operacional utiliza modelos como representações simplificadas de situações reais de decisão. Antes de escolher um algoritmo, é necessário definir o que se pretende decidir, qual critério será usado para comparar alternativas e quais limitações devem ser respeitadas.
O modelo matemático deve permanecer ligado ao significado operacional de suas variáveis e parâmetros. Uma solução numericamente correta só é útil quando representa adequadamente o problema que motivou sua construção.
1.1 Forma geral de um modelo de Programação Linear
| Símbolo | Interpretação |
|---|---|
| \(x_j\) | Variáveis de decisão. |
| \(c_j\) | Contribuição unitária de cada variável para a função objetivo. |
| \(a_{ij}\) | Coeficientes técnicos das restrições. |
| \(b_i\) | Disponibilidades, limites ou requisitos associados às restrições. |
2. Quando um problema pode ser tratado como Programação Linear?
A Programação Linear pressupõe relações lineares. Na prática, algumas condições ajudam a avaliar se a representação é adequada ao problema.
Linearidade
A função objetivo e as restrições são combinações lineares das variáveis.
Proporcionalidade
A contribuição de uma variável varia proporcionalmente ao seu nível de atividade.
Aditividade
O efeito total resulta da soma das contribuições individuais, sem interação entre variáveis.
Divisibilidade
As variáveis podem assumir valores fracionários quando a natureza do problema permitir.
Certeza
Os coeficientes são tratados como conhecidos e constantes durante a análise.
Não negatividade
Na formulação usual, as variáveis assumem valores não negativos.
Essas hipóteses funcionam também como um teste de adequação. Se o consumo de um recurso não variar de forma proporcional à atividade, ou se houver interação relevante entre decisões, a representação linear pode exigir aproximações ou outro tipo de modelo.
3. Região viável, convexidade e soluções básicas
O conjunto de valores que satisfaz simultaneamente todas as restrições e as condições de não negatividade constitui a região viável. Em duas variáveis, essa região pode ser representada geometricamente.
Uma propriedade fundamental é a convexidade. Para um problema linear com solução ótima finita, existe pelo menos uma solução ótima em um ponto extremo da região viável. Essa propriedade fornece a base geométrica para o método Simplex.
3.1 Forma matricial
Depois de transformadas as restrições em equações, o sistema pode ser representado por:
3.2 Solução básica
Em um sistema com \(m\) equações independentes, selecionam-se \(m\) variáveis para formar a base. As demais são consideradas não básicas e recebem valor zero. Se \(B\) representa a matriz formada pelas colunas básicas, então:
4. Preparação do modelo para o método Simplex
O método Simplex é um procedimento iterativo que percorre soluções básicas viáveis adjacentes, procurando melhorar o valor da função objetivo. Para iniciar o processo no caso mais simples, as desigualdades do tipo \(\le\) são convertidas em igualdades com variáveis de folga.
4.1 Variáveis de folga
Uma restrição do tipo
é transformada em:
A variável \(f\) representa a parcela do recurso que não foi utilizada. Para \(m\) restrições do tipo \(\le\), pode-se escrever:
Se \(x=0\), resulta \(f=b\). Quando \(b\ge0\), as próprias variáveis de folga formam uma base inicial natural.
5. Quadro do Simplex e etapas de uma iteração
O quadro organiza os coeficientes das restrições, as variáveis básicas, os termos independentes e os indicadores usados para verificar se uma nova troca de base pode melhorar a função objetivo.
5.1 Critério de otimalidade
Para uma formulação de maximização escrita com a linha \(C_j-Z_j\), um valor positivo indica que existe potencial de melhoria. Assim:
5.2 Sequência operacional
6. Exemplo: mesas e cadeiras
Considere o modelo:
6.1 Conversão para igualdades
A solução básica inicial é:
6.2 Primeira iteração
A variável \(x_1\) possui a maior contribuição positiva para a melhoria da função objetivo no quadro inicial e entra na base. O teste da razão é:
A menor razão é \(10\); portanto, \(f_1\) sai da base. A primeira nova solução básica é:
6.3 Iteração seguinte e solução ótima
A variável \(x_2\) passa a entrar na base e \(f_2\) sai. Ao final do processo, obtém-se:
7. Quando a base inicial não aparece naturalmente
O procedimento estudado neste capítulo funciona de forma direta quando as restrições são do tipo \(\le\), os termos independentes são não negativos e as variáveis de folga fornecem uma base inicial viável.
Nem todo modelo apresenta essa estrutura. Uma restrição do tipo \(\ge\), por exemplo, é convertida em igualdade pela subtração de uma variável de excesso:
O tratamento sistemático dessas situações — incluindo variáveis de excesso, variáveis artificiais, Método Simplex em Duas Fases, dualidade e Dual-Simplex — é desenvolvido no Capítulo 4.
Referências utilizadas no capítulo
ANDRADE, Eduardo Leopoldino de
Introdução à Pesquisa Operacional: métodos e modelos para análise de decisões. Rio de Janeiro: LTC. Referência conceitual para modelagem e apoio à decisão.
HILLIER, Frederick S.; LIEBERMAN, Gerald J.
Introdução à Pesquisa Operacional. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. Referência para formulação de PL e método Simplex.
O conteúdo foi reorganizado para separar a formulação e o Simplex primal, tratados neste capítulo, dos procedimentos de inicialização especiais e da dualidade, desenvolvidos no capítulo seguinte.